segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A difícil e última edição...
















Patrícia Bueno

Na sempre vibrante redação do Monitor Campista, um silêncio amargo denunciava a ressaca de um dia inteiro embriagado de tristeza. - Por que caíra logo na minha mão a responsabilidade pela última edição? – praguejava enquanto passava os olhos naquelas que seriam as últimas páginas depois de 175 anos de história. Nunca foi tão difícil preencher os “AAAA” colocados pelos diagramadores, provisoriamente, no lugar de títulos e legendas. Bloqueio. Bloqueio total.
Queria ter forças para fazer uma edição memorável, mas a recomendação era que fizéssemos um jornal “leve”, como se nada estivesse acontecendo. Queria gritar para o mundo: “Estão matando nosso patrimônio!”, mas a ordem era fazer um jornal “pra cima”, sob pena de não irmos para as bancas no domingo.
Testemunhei conversas preocupadas pelos corredores durante todo o dia, beijos e abraços de despedida, choros emocionados, olhares perdidos, promessas de amizade eterna, gavetas e sonhos sendo esvaziados, velhas apurações e seus garranchos amontoadas na lixeira. Parecia mentira.
Um filme passou pela minha cabeça enquanto tentava interceptar as lágrimas que caíam sobre o teclado do computador. A noite descia silenciosa. Os colegas iam para casa de olhos inchados. Esforçava-me para trabalhar a derradeira edição. Meu pensamento voou longe, lá pelos anos 90, quando subi pela primeira vez as escadas que levavam à redação antiga. Benditos degraus que me conduziram ao Monitor, minha grande escola, lugar onde conheci grandes amigos e aprendi lições que vou levar para minha vida inteira.
E os AAAA dos diagramadores continuavam lá, a me desafiar, como a zombar de minha grande angústia de encontrar as palavras certas para ilustrar, mesmo que nas entrelinhas, aquele momento histórico. Mas onde foram parar as malditas palavras? Aquelas que sempre fluíram quando precisava, formando títulos sempre elogiados pelos colegas. “Vamos, Patrícia, pense em algo, é nossa última edição”. Pairava sobre mim essa grande responsabilidade, sem dúvida, o maior desafio de minha carreira.
E assim, entre títulos, subtítulos, lembranças, legendas e lágrimas fui tecendo a última capa, cinzenta, melancólica como a foto do menino pisando as areias da praia (que se danem as ordens e recomendações...).
E quando, enfim, terminei a edição da capa, tudo a minha volta era saudade. Máquinas desligadas, gavetas vazias, o copinho com o café que ficou pela metade, as violetas sobre a minha mesa numa vã tentativa de amenizar o sofrimento, o relógio na parede a me lembrar que era chegada a hora de ir, catando no chão o que ficou de nossos sonhos naquela sexta-feira 13. Silêncio.
Impregnados naquelas paredes, onde hoje estão estantes com sapatos, ficarão para sempre nossas barulhentas trocas de turno (a extensão do mercado municipal, brincávamos), nossos risos, as piadas, o clima tenso de fechamento de edição, segredos, histórias e mais histórias. Lembranças...
Não sei se a capa parida a duras penas chegou ao leitor com a mesma emoção com que foi feita. Não importa. Fizemos o melhor. O Monitor não morreu. Estará sempre vivo no coração da família que todos os dias se reunia para fazer com que ele chegasse às bancas, estará sempre vivo na página que alguém emoldurou e colocou, com orgulho, na parede. Num velho recorte perdido numa gaveta qualquer. O 15 de novembro de 2009 foi sim “um dia que ficou na História”. Mas muitos foram os dias que ficaram na nossa história, afinal, há um pouco de nós em cada página que ajudamos a escrever.

(Na foto, o dia em que "levamos" Enockes à nossa festa. Nela estamos eu, Zé Amaro, vulgo Agostinho, e Elton. Enockes não pôde ir em carne e osso, mas até que ficou engraçadinho de papelão... rsrsrs. Saudade dessas nossas peraltices...).

4 comentários:

Pedro Ornellas disse...

Acompanhei com muita tristeza o fechamento do Monitor... Tive o privilégio de conhecer o jornal, através da Patrícia, quando estivemos (Os Trovadores do Campo) nos apresentando em Campos. Visitamos o arquivo, relembrando notícias históricas... Espero que essa história tome melhores rumos!

claudia disse...

Amiga,
Acabei de ler as postagens no blog e confesso que me emocionei. Apesar de não ter trabalhado lá, aprendi a respeitar o trabalho competente dos colegas. E o melhor, fiz muitos amigos no Monitor, de uma certa forma, me sentia parte daquele espaço, daquele jornal. Gostava muito de ler as notícias cheias de conteúdo e muita imparcialidade. As matérias culturais sempre eram uma leitura leve, rica e atraente.
E peço licença a Mia Couto para emprestar algumas palavras que dizem muito no momento:
Horário do Fim
morre-se nada
quando chega a vez
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos
morre-se tudo
quando não é o justo momento
e não é nunca
esse momento (Mia Couto)
Bjs, Cláudia Eleonora

Anônimo disse...

Parabéns pela iniciativa!

O Jornal da Bahia foi um periódico brasileiro da cidade de Salvador, que circulou entre 1958 e 1994, que sofreu a mesma violência que o Monitor Campista sofreu.

O Jornal da Bahia, fundado naquela época por comunista, João Falcão, um militante de verdade, que reunia grandes nomes da intelectualidade baiana, inclusive João Santana Filho, o Patinha, hoje, o Guru da presidenta Dilma, na publicidade e marketing.

O JBa, como ficou conhecido entre 1969 e 1972, foi fortemente perseguido pelo então prefeito de Salvador e então governador Antônio Carlos Magalhães, que usou meios jurídicos para desmoralizá-lo, se aproveitando do cenário político promovido pelo AI-5. No entanto, sua linha editorial permanecia a mesma.

Daí a frase histórica “Não Deixe Esta Chama se Apagar”, quero me solidarizar com todos, pois a luta continua, se preciso for, o Monitor Campista, poderá vir com o nome “Nosso Monitor” é com o slogan “Não Deixe Esta Chama se Apagar”.

Tudo é possível, sonho que se sonha só e só um sonho, sonho que se sonha junto é realidade, disse Raul Seixas.
Jorge Guimarães

Patrícia Bueno disse...

Pedro! Que maravilhosa visita ao nosso blog! Nós também esperamos que um dia essa história tenha um outro desfecho.
Claudinha... você é parte de nossa história. Mas Mia Couto me faz chorar... rsrs...
Jorge, obrigada pelo comentário e pela força. Pelo que se vê, sonhamos juntos até hoje. A chama ainda arde...
Beijo carinhoso a todos vocês, amigos!